Este blog tem a função inicial de compartilhar poesias, mas certamente está aberto a outros devaneios meus e de quem quiser colaborar, sugerir, comentar e etc.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Bebo só. Que triste!
Vida, tenha dó
De mim.
Querer e não ter
Com quem beber,
E não ter pra quem dizer
Que eu bebo pra esquecer
Do amor que se perdeu,
Do amigo que partiu.
A saudade enalteceu
A dor que não se viu.
Mas agora, que saudade, amigos meus.
Onde estão, vocês que não se vão
Do meu lembrar, que não se vão do nosso bar,
A me lembrar que bebo só?
Que tristeza! Bebo só
Por não ter a quem falar pra me lembrar
De esquecer de me lembrar
Que bebo só. Que tristeza!
André Terra
17/12/2008
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
A maior de todas as verdades é a inocência. A maior e a mais invisível. No presente não posso ver sequer a inocência da flor, cujo pólen me causa uma reação alérgica, que dirá a inocência de um ser humano. Principalmente se esse ser humano for alguém que me é emocionalmente próximo e, sobretudo, se esse ser humano for eu mesmo.
Penso então em alguém com um currículo de crimes imperdoáveis. Um psicopata! Este que retira a vida de pessoas por prazer. Seria ele menos inocente que uma pedra? Não posso afirmar isso. As pedras assim como os psicopatas tem retirado a vida das pessoas por milhares de anos. Então serão ambos culpados?
Talvez o bebê seja inocente. Mas o que faz ele senão gerar trabalho ao adulto que incansavelmente cuida dele sem esperar nada em troca? Será o leão que devora uma zebra culpado? Ou seria talvez, a gramínea, devorada pela zebra, a grande inocente?
A visão da inocência na sua nudez irrestrita é o alicerce para a construção do amor. E o que poderá, senão o amor, salvar aquele que passou o último bilhão de anos ainda não nascido e estará morto no próximo bilhão, se é que algo pode? E quem pode ser mais inocente aos olhos do homem do que o próprio homem? E quem, em meio aos homens, pode ser mais inocente do que “eu”? E quando digo “eu” me refiro a “nós”. Ou seja, o grande “eu” formado pela etérea e irrestrita inocência de todos os “eus” unidos. Quem?
Não. No momento não posso enxergar nada disso. Porque agora sou culpado. Muitíssimo culpado, por tudo de errado que ronda o mundo. Tudo. Minha culpa. Agora tenho que carregar a cruz em minha fria penitência. Por todo o mal que tenho causado. E assim condeno meus semelhantes. Todos irão para a forca! Homens e pedras. Pois se sou culpado também o são os demais. E o mundo.
Mas só por enquanto. Pois um dia hei de me redimir. Porque um dia hei de morrer e enfrentar o juízo final que fantasiei para obter o meu próprio perdão. E nesse dia, em que morrerei, alguém há de chorar por mim as lágrimas que guardei para o dia em que pudesse ver a pureza de minha própria inocência e descobrir, para minha surpresa, que ela sempre esteve lá.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Soneto partido
O que é essa vontade de criar
Senão o desejo de partir,
De partir sem rumo e de sonhar
O vento, a estrada e o seu porvir?
O que é esse desejo de criar
Senão a urgência de sentir,
Senão a coragem para ir
E a avidez por se chegar?
O que é essa urgência de partir
Senão a vontade de ficar
Onde a alegria canta mais lasciva?
Ficar em eterno prosseguir,
E nunca partir para restar
Pra que a morte morra e a vida viva.
André Terra,
Rio de Janeiro, setembro de 2008
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Precisa-se de uma casa,
De preferência bem localizada e em local indevassável.
Não é necessário que esteja mobiliada. Isso agente resolve com o tempo.
A casa não precisa ser grande, só precisa ter espaço para o homem
Seus pensamentos e seus outros eus.
É importante que haja uma varanda que também não precisa ser grande
Mas que caiba uma rede, porque uma rede é importante.
É completamente indispensável que a casa tenha um jardim,
Os apartamentos que me desculpem,
E que nesse jardim exista pelo menos quatro tipos diferentes de flores,
E que ao menos uma delas permaneça florida durante o inverno.
Precisa-se de um mato,
Um mato bom, com muitas árvores e cipós,
Desses que cheiram depois das chuvas,
Onde o homem possa encontrar-se consigo mesmo
Depois de tanto tempo perdido de si no cotidiano da cidade.
Sim, um pedaço de mato. Um mato bom, e que seja perto.
Que não haja trânsito até ele e, de preferência, que se alcance o mato
Com uma pacífica caminhada.
É desejável que o mato tenha macacos e outras coisas interessantes,
Mas, se for impossível, que pelo menos tenha passarinhos alegres
Que gostem de cantar pela manhã.
Precisa-se de um bar ou algo como um bar
Localizado nas redondezas da casa,
Que venda cerveja, ou algo como cerveja,
Ou algum líquido que seja um bom pretexto pra ver os amigos.
Ah. Claro!
Precisa-se de amigos. Não muitos, mas bons,
E que pelo menos dois ou três deles sejam como irmãos
Que dêem a impressão de que já se conhece de outras vidas.
É importante que os amigos se reúnam no bar
Para conversar sobre coisas importantes como piadas e mulher
E até mesmo coisas sem importância como política e a economia mundial,
Mas que sempre transmitam a paz de tê-los por perto ou perto do coração.
Precisa-se de uma mulher.
Uma mulher simples, de uma beleza simples.
Sem maquiagem.
Dessas mulheres que fazem coisas simples
Como desabrochar flores, encher luas, clarear céus
E ocasionalmente, até um macarrãozinho ao alho e óleo.
Dessas mulheres que têm um sorriso próprio, misterioso
Que está quase sempre com ela, mas que, quando triste,
Possa se confortar na presença do meu peito.
É importante que ela não seja celibatária, pelo amor de deus,
Mas que tenha alguma virgindade no olhar
De modo que ruboresça ligeiramente com as pequenas indecências do amor
E que seja sempre como uma fonte inesgotável de água fresca
Para esse viajante sedento que é o homem, que seja única aos seus olhos
E que seja livre, porque a mulher é como um pássaro
Que quando preso transforma seu canto em um lamento,
E não há nada mais belo, em toda a natureza, que a mulher livre.
Precisa-se de um violão,
Para cantar a mulher,
Para falar ao amigo,
Para alegrar o bar,
Para ecoar no mato,
Para apaziguar a casa,
E que o violão seja como a casa que espera o homem voltar a ele,
E que seja como o mato que lhe desperte o mistério,
E que seja o amigo fiel e a alegria do bar,
E que seja a mulher se a mulher não estiver,
E que também a mulher seja como a casa.
A mulher para onde o homem se volta para repousar da sua luta.
Que o amigo seja como a casa.
Que o bar seja como a casa.
Que o mato seja como a casa do homem,
Que sempre foi selvagem.
Precisa-se enfim, de compreensão para com o poeta
Se o poeta, na sua arrogância, pede demais,
Mas pendura a conta Manoel, que vou sempre olhar nos meus bolsos
Se tiver qualquer tostão ele é teu.
André Terra,
Rio de Janeiro 14/08/2008
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Poesia de inverno
Das profundezas mórbidas do lado obscuro da alma,
Da infinitude dos abismos e dos desfiladeiros que se assomam à beleza da vida,
Do país das noites imensas e gélidas e sem luas,
Eis que surge trágico, vil e onipresente
O inverno.
Insinua-se lenta e silenciosamente, esgueirando-se sobre a terra
Com seus longos e gélidos dedos que esticam-se sinuosos
Por entre os troncos das árvores que se encolhem à sua passagem.
Carrega consigo o grande nada, inconcebível pela vã filosofia do homem.
Segue sua marcha em lenta e calma determinação esvaziando almas,
Consumindo as belezas, retirando as cores da natureza,
Calando a tudo exceto os gritos e os uivos.
O inverno se anuncia com a partida da mulher amada.
Esta que se foi tal qual o tornado ou a tempestade,
Deixando atrás de si apenas a destruição, o vazio, o desespero.
Ruínas de tudo o que outrora foi vivo, rico e próspero
São o legado da mulher amada e de sua passagem devastadora.
Esta mulher amada que, mesmo agora, longínqua,
Semeando a tempestade além dos horizontes visíveis,
Perpetua-se ainda na dor da lembrança em tudo o que jaz no chão.
Após a mulher amada resta apenas
O vento,
Que não é mais amigo do homem,
E o olhar perdido da alma febril
Que observa indiferente, mas não sem tristeza,
O mundo que se encarcera em mil calabouços.
Os pássaros internam-se nos ninhos,
Os animais nas tocas, o sol nas nuvens cinzentas.
As árvores internalizam-se nos troncos
Que parecem cadáveres vegetais estáticos.
As folhas caem, os frutos caem, as flores morrem.
As mulheres abrigam-se nas casas e, dentro das casas,
Abrigam-se nas roupas grossas. As crianças desaparecem com seus sorrisos.
Os homens internam-se em si mesmos.
O inverno não é o frio,
É a ausência de calor.
Ele não é a tempestade,
É a falta de um céu claro e ensolarado.
Ele é a carência, a ausência de qualquer coisa.
O inverno não é nada senão o próprio nada.
Ele é aquilo que não é. É a própria inexistência.
É a morte.
A vida é o verão, a existência, a abundância, a diversidade explosiva, o tudo.
O vento sopra e uiva furioso gritando o desespero da ausência da mulher amada.
O homem só e dilacerado sentado sobre os escombros de seus sentimentos
Vê a si mesmo como em um delírio febril.
É nesse momento fugaz que,
Incapaz de discernir a ilusão e a realidade, o homem estica o pescoço
E avista o horizonte que guarda um trêmulo feixe de luz
De um sol que já se pôs.
O horizonte é a esperança estática, que pode perfeitamente ser apenas um sonho.
O horizonte é o verão.
Mas sabendo a direção a seguir, a alma do homem,
Já cambaleante e morimbunda, aprumando-se, dá um passo
E transforma a esperança em fé.
Se o homem sobreviver pode ser que o céu se abra e o sol suba alto e forte.
Pode ser que a luz traga as cores da natureza de volta e talvez, sim,
Talvez voltem os pássaros, e os animais, e as flores e o calor da vida.
Pode ser!
Se isso acontecer, diante de tal plenitude, como um raio de sol
Que cruza a imensidão dos espaços, perfurando as nuvens sombrias e tempestuosas,
Sobrepujando bravamente a barreira das copas das árvores em busca da terra, surgirá
A mulher amada
Linda e ensolarada. Ela sorrirá
E o homem dirá pra o céu “É verão”
E chorará como nunca porque sabe,
Sabe pela sabedoria do fundo da consciência de todas as razões
Que um milagre aconteceu.
André Terra
Rio de Janeiro 26 de maio de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
SONETO DE INTIMIDADE
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
Vinícius de Moraes
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Ausência
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinicius de Moraes
Rio de Janeiro, 1935
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Um longo adeus
Eu vi você passar e vir me ver
E ter-me intermitentemente aqui e ali,
A sós, a dois. O teu, o meu
O nosso amor é como um vento bom
Um vago som de luz, um verso
Inverso envolto em vestes vãs
A vastidão azul azul
Eu vi você passar por mim e ir-se assim
Pra longe, longe no seu ser distante, avulso
E muito além de mim e agora
Eu tenho a vida inteira pra viver
E vir a te esquecer um dia
Mas a vida inteira havia
De ser muito pouco
Se não era mais para ser
Me diz porque que dói demais
Por mais que eu tenha
A vida inteira pra dizer adeus
Eu tenho a vida inteira pra dizer adeus
Por deus não vá embora
Muito embora agora
Seja tarde demais
Se não era mais para ser
Me diz porque que dói demais
Por mais que eu tenha
A vida inteira pra dizer adeus
Adeus
O nosso amor é como um vento bom
Um vago som, um vulto teu
A voz da vida, uma visão
Um vil e vagaroso adeus
André Terra (2007 / 2008)
Poesia de verão
A alma se alarga
As saias se encurtam
O sol se mostra pleno em seu vigor
Banhando tudo o que há por sobre a terra de beleza
Tudo é muito verde e muito azul no verão
Paira no ar qualquer magia, qualquer beleza mística e íntima
Que se faz perceber no canto voador dos pássaros
E no silêncio multicolorido das flores
Ah, o verão!
Este que é, em sua essência, uma pluralidade, uma riqueza,
Uma abundância de tudo
A vida que se expande e transborda
O rio que não cabe em seu leito e transborda
O mar que não cabe em seu leito
A mata que, de tão verde, não cabe em si
O seio que transborda,
Como o mar, como a mata, como o rio,
Como a chuva que, de tão alegre,
Não se contém e cai abundante
Para encontrar a mata,
E depois o rio,
E depois o mar,
E depois o seio, e depois o céu.
Mas o verão é, acima de tudo, uma alegria
Uma alegria rica, simples, abusada e despudorada
Uma alegria despretensiosa, inexplicável, inexprimível e sem razão de ser
Uma alegria sem cabimento como toda a alegria.
No verão minha alma aguça os sentidos
E enche-se de olhos para as moças que passam
E os olhos enchem-se de mãos
E as mãos enchem-se de ternura e desejos
E os desejos enchem-se de moças e de sol
O sol e as moças
Confundem meus olhos e torcem-me o pescoço
É lindo observá-las ao sol andando alegres e acaloradas
Morenas, lindas,
As faces coradas, os seios saltando em busca de luz
Como as árvores.
Passeiam em bandos, às vezes, e se envergonham ligeiramente
Se o sol lhes arranca uma gota de suor que escorre pelo rosto.
Estão sempre esticando as saias porque andam um pouco mais nuas
Do que se sentiriam à vontade.
Temem que seu segredo seja revelado.
O grande segredo, o grande mistério
Da mulher.
O segredo guardado a sete chaves oculto no corpo e nos olhos.
O segredo cobiçado pelo sol que, no verão, abre as portas dos templos de afrodite
Como um invasor bárbaro.
E no verão as moças estão cheias de segredinhos.
Cochicham e dão risadas, orgulhosas de sua feminilidade despida e aguçada pelo verão.
Felizes de despertar a fome e fúria dos homens, têm a benção da deusa,
E meu coração enlouquece!
Ah, o verão!! O verão!!
Esta tempestade de paz, gozo e bem estar
É apolo, o deus sol, que do alto da sua glória e poder
Ri da sua própria natureza efêmera
Como se isto tudo fosse eterno.
Quanto a mim, só espero poder carregar
Para o inverno dos meus dias vindouros
Este calor no coração, cheio de porvir
E de vida.
André Terra,
Praia da Ferrugem, Santa Catarina. Janeiro de 2008
A mulher e a montanha
A maioria de nós as dilacera como um esquartejador e enxerga apenas partes de mulher.
Assim nós vemos um rosto, um seio, uma nádega, um par de pernas. Alguns, com melhor perspectiva vêem um corpo, um sentimento, um conjunto de gestos.
Mas quantos homens são capazes de ver uma mulher, uma mulher inteira, percebendo as nuances graciosas que fazem com que todas as partes interajam? Quantos?
Tal qual a formiga, não podem enxergar toda a montanha enquanto caminham sobre ela.
Assim, ao olhar minha mulher de tal perspectiva e ter o privilégio de admirá-la na sua totalidade, me sinto o dono de uma riqueza imensa e isso me faz sentir bem a respeito de mim mesmo.
Dessa forma, penso eu, se sentiam os sábios do oriente ao contemplar ao longe o monte Fuji na sua indivisível e grandiosa beleza.
André Terra 2006
A mulher feminista
Uma mulher extremamente feminista nos dias de hoje é como um homem chato que chegou de penetra, sem trazer cerveja, em uma festa com pouca mulher.
André Terra, dezembro de 2007
Pra me redimir com o samba
Não gosto de samba que o samba é doente
Não liga pra agente, só faz o que quer
É solto na vida, é o que der e vier
É um velho pandeiro e uma nova mulher
Não gosto de samba que o samba é vadio
Se manda pro Rio e vive a cantar
Não sai mais do bar nem da beira do mar
Não larga a morena nem pra descansar
E anda falando de mim por aí
Dizendo na rua – Vê lá! Esse aí
Parece que bom sujeito não é
É ruim da cabeça, é doente do pé.
Não gosto de samba que o samba é a alegria
Que a vida não via, que a vida não quis
Pergunto pro samba e o samba não diz
Como é que se faz pra se viver feliz
Mas quando esse samba sambou no meu coração
O samba tocou em outra estação
Então sorridente, com a alma contente,
Lhe dei de presente uma nova canção
Não gosto de samba que o samba é dureza
Se estou na tristeza não tá nem aí
Diante das dores do mundo ele ri
Carrega a alegria inteira pra si
Não gosto de samba que o samba é inimigo
Não samba comigo, me deixa pra trás
Navega nos ares e leva a mulata
Me deixa esperando sozinho no cais
E anda falando de mim por aí
Dizendo na rua – Vê lá! Esse aí
Parece que bom sujeito não é
É ruim da cabeça, é doente do pé.
Não gosto de samba que o samba é a alegria
Que a vida não via, que a vida não quis
Pergunto pro samba e o samba não diz
Como é que se faz pra se viver feliz
Mas quando esse samba sambou no meu coração
O samba mudou e desde então
Não sei mais mentir. Eu vivo a sorrir
Pra me redimir com o samba
André Terra
Morena
Me diga a que veio, morena
Que anseio por saber de ti
Porque quando passas, alegre e ri
Tu paras o tempo atrás de ti
Me dá do teu gosto, morena
Que exposto no sol a dourar
Teu corpo tem cheiro de brisa de mar
De fruta madura a se desfrutar
Pois diga você
O que os olhos, morena
Não sabem dizer
És flor de açucena
És flor do querer
A vida não vive sem vir ver você
Pois diga você,
O que os lábios, morena
Não querem dizer
O que a mente pena pra compreender
O amor que transborda de mim por você
Não fala com a vida, morena
Que a vida não sabe dizer
A vida não é e nem deixa de ser
É à flor da pele morena, é você
Me olhas de um jeito, morena
Que olha, eu vou te dizer
Mal sabes que olhos me invejam por ter
Os olhos que olham-te a ver-me te ver
Pois diga você
O que os olhos, morena
Não sabem dizer
És flor de açucena
És flor do querer
A vida não vive sem viver você
Pois diga você,
O que os seios, morena
Não ousam dizer
O que as pernas morenas
Em roupas pequenas não temem expor
Da beleza de ser
Pois cala morena
Que o beijo, morena
Já vem me dizer
E não sai de cena na minha canção
Porque o meu coração se perdeu
Por você
André Terra
Antítese
Ó mãe natureza que reside em todas as partes e em nós mesmos, tu que és tudo o que há
Ó grandes mistérios ocultos que regem o universo cuja natureza desconheço por completo
Ó deus pai todo poderoso criador dos céus, dos mares e das terras,
Vós todos, ouçam minhas súplicas e esclareçam-me a dúvida torturante:
Por que fizestes desta maneira esta criatura que me passa diante dos olhos,
Esta moça, esta fêmea, esta que é meu desejo e meu túmulo?
Por que haveria ela de me embelezar a paisagem e a alma,
De despertar a aventura adormecida de meu peito e
Empregnar-me a carne e alimentar-se de meu sangue e
Esvaziar-me, por fim, a mesma alma que me deu outrora?
Por que a criastes desta forma, para povoar meus pensamentos e minhas desilusões?
Por que ela leva-me às nuvens e me deixa de lá despencar no vazio?
Por que enchestes-na de seios e de curvas que me atiçam e negam-se a mim simultaneamente?
Pois vos digo que é ela o veneno e o antídoto e o anti-antídoto,
A antítese, propriamente dita, que nega-se a si mesma, afirmando-se a todo momento.
Ó deuses todos e divindades sobrenaturais iluminem-me pois nada compreendo
Se esta que me trás a vida e a morte é azar e sorte, gozo e confinamento.
Se ela é o perfume das flores primaveris de onde vêm então esse cheiro fétido de podridão?
E de onde então vêm a alegria tão pura e simples que extravasa do seu sorriso
Quando seus olhos, por um momento, são meus?
Por que então haveria de ser ela quem traz a lua cheia, e não somente traz,
Mas quem é a própria lua e o céu e o mar?
Sim, o mar. O mar. Ela é o mar. E as ondas, e a terra, e os pássaros, e as flores,
E os ventos, e plantas e animais e
Todas as coisas outras belas e lindas são ela.
Ela é tudo e, por fim, até mesmo vós, ó deuses e entidades supremas,
Ela encerra em si a vós todos, pois sem ela não há natureza, nem cores,
Nem luas, nem mares, nem deuses de nenhuma natureza,
Pois sem ela não há nada.
Por ela vivo e por ela, afrodite, hei de morrer um dia.
Que o diabo a carregue, a maldita, e amaldiçõe e lhe dê morte cruel
E que deus a abençõe e guie, a bendita, e lhe dê a vida eterna,
A ela,
A mulher.
André Terra, dezembro de 2007
O nascimento brutal da poesia
É de extrema importância porque hoje algo de terrível aconteceu.
E o que aconteceu foi que o que era previsível se deu!
Choveu, como há três dias atrás. Os meteorologistas já haviam dito.
Foi um dia como ontem e como antes de ontem, ou quase
E por essa razão, meus queridos companheiros,
Em algum lugar do mundo um homem quase morreu
De tédio, e uma mulher chorou sozinha em seu quarto.
Hoje a poesia urge. Porque hoje os cães ladraram como ontem
E um homem saiu de casa sem o guarda-chuva.
É importantíssimo que se façam versos hoje! Agora! Sem demora! É imprescindível!
Mesmo que as contas estejam pagas e justamente por isso.
Mesmo que os relatórios tenham sido entregues e justamente por isso.
Mesmo que todos os sistemas estejam operando corretamente e que não haja falhas nos
Dados, é de suma importância que se façam poemas, que se façam canções,
Que se façam orações , que se façam esculturas e pinturas com urgência! É imperativo! Tem que ser hoje. Agora!
Porque todos os poetas estão mortos!
Porque todos os artistas estão mortos!
Porque todos os deuses estão mortos!
Meu deus!
Tenho que me encarregar desta tarefa árdua! Eu que não sou poeta. Eu que não sou.
Tenho de fazer o parto e trazer a palavra à luz. É preciso!
Porque os homens todos se tornaram robôs.
Porque os homens quase todos se tornaram advogados,
E muitos advogados se tornaram taxistas, e poucos taxistas se tornaram loucos,
E pouquíssimos loucos se tornaram assassinos,
E apenas um se tornou poeta
Mas já morreu.
Porque as ruas estão cheias de máquinas.
Porque a economia vai indo bem e a balança comercial está favorável.
Meu deus, hoje mais do que nunca a poesia se faz necessária
Porque já não há mais espaço para ela que vaga morimbunda
Às margens dos subúrbios do terceiro mundo.
Porque em algum lugar do mundo alguém sofre por amor.
Porque em algum oceano profundo há um navio naufragado
Porque em algum canto remoto aconteceu um suspiro de mulher,
E depois, uma lágrima caiu. Meu deus!! Meu deus!!
Há de se fazer poesia já!!
Porque uma flor nasceu a despeito de tudo!
Porque uma criança nasceu a despeito de tudo!
Porque um beijo se deu a despeito de tudo e de todos
Em algum lugar! Eu sei.
Porque uma formiga subiu no tronco de uma árvore completamente ignorante e alheia
Aos recentes avanços das telecomunicações e internet, e caiu desta mesma árvore
Pela força do vento e sem agendamento prévio.
Porque em algum lugar longínquo, em um desfiladeiro ou uma planície abissal
Nos confins da natureza humana deve existir a alma e deve existir o coração.
E é por essa razão, meus queridos companheiros, que uma poesia deve nascer.
Mas não sem um sacrifício. Deve haver sangue e suor.
Há de se degolar um cordeiro como oferenda.
Há de se queimar um vilarejo e deixar um tanto de crianças órfãs.
Há de se derramar lágrimas e pagar promessas com sofrimento.
Há de se sacrificar uma virgem e confessar mil pecados
Para que a poesia ganhe vida e se mantenha forte, alimentada com sangue e carne,
Para que tenha odor de sexo e suor,
Para que possa desprender-se de si e atirar-se contra os rochedos como o mar.
Pois é urgente, é completamente urgente, é indispensável
Que se faça poesia. Hoje! Agora!
É preciso, pelo amor de Deus.
André Terra, dezembro de 2007
O amor dos homens
Paris, 07.1957