quinta-feira, 3 de abril de 2008

O nascimento brutal da poesia

Hoje a poesia se faz urgente!
É de extrema importância porque hoje algo de terrível aconteceu.
E o que aconteceu foi que o que era previsível se deu!
Choveu, como há três dias atrás. Os meteorologistas já haviam dito.
Foi um dia como ontem e como antes de ontem, ou quase
E por essa razão, meus queridos companheiros,
Em algum lugar do mundo um homem quase morreu
De tédio, e uma mulher chorou sozinha em seu quarto.
Hoje a poesia urge. Porque hoje os cães ladraram como ontem
E um homem saiu de casa sem o guarda-chuva.
É importantíssimo que se façam versos hoje! Agora! Sem demora! É imprescindível!
Mesmo que as contas estejam pagas e justamente por isso.
Mesmo que os relatórios tenham sido entregues e justamente por isso.
Mesmo que todos os sistemas estejam operando corretamente e que não haja falhas nos
Dados, é de suma importância que se façam poemas, que se façam canções,
Que se façam orações , que se façam esculturas e pinturas com urgência! É imperativo! Tem que ser hoje. Agora!
Porque todos os poetas estão mortos!
Porque todos os artistas estão mortos!
Porque todos os deuses estão mortos!
Meu deus!
Tenho que me encarregar desta tarefa árdua! Eu que não sou poeta. Eu que não sou.
Tenho de fazer o parto e trazer a palavra à luz. É preciso!
Porque os homens todos se tornaram robôs.
Porque os homens quase todos se tornaram advogados,
E muitos advogados se tornaram taxistas, e poucos taxistas se tornaram loucos,
E pouquíssimos loucos se tornaram assassinos,
E apenas um se tornou poeta
Mas já morreu.
Porque as ruas estão cheias de máquinas.
Porque a economia vai indo bem e a balança comercial está favorável.
Meu deus, hoje mais do que nunca a poesia se faz necessária
Porque já não há mais espaço para ela que vaga morimbunda
Às margens dos subúrbios do terceiro mundo.
Porque em algum lugar do mundo alguém sofre por amor.
Porque em algum oceano profundo há um navio naufragado
Porque em algum canto remoto aconteceu um suspiro de mulher,
E depois, uma lágrima caiu. Meu deus!! Meu deus!!
Há de se fazer poesia já!!
Porque uma flor nasceu a despeito de tudo!
Porque uma criança nasceu a despeito de tudo!
Porque um beijo se deu a despeito de tudo e de todos
Em algum lugar! Eu sei.
Porque uma formiga subiu no tronco de uma árvore completamente ignorante e alheia
Aos recentes avanços das telecomunicações e internet, e caiu desta mesma árvore
Pela força do vento e sem agendamento prévio.
Porque em algum lugar longínquo, em um desfiladeiro ou uma planície abissal
Nos confins da natureza humana deve existir a alma e deve existir o coração.
E é por essa razão, meus queridos companheiros, que uma poesia deve nascer.
Mas não sem um sacrifício. Deve haver sangue e suor.
Há de se degolar um cordeiro como oferenda.
Há de se queimar um vilarejo e deixar um tanto de crianças órfãs.
Há de se derramar lágrimas e pagar promessas com sofrimento.
Há de se sacrificar uma virgem e confessar mil pecados
Para que a poesia ganhe vida e se mantenha forte, alimentada com sangue e carne,
Para que tenha odor de sexo e suor,
Para que possa desprender-se de si e atirar-se contra os rochedos como o mar.
Pois é urgente, é completamente urgente, é indispensável
Que se faça poesia. Hoje! Agora!
É preciso, pelo amor de Deus.




André Terra, dezembro de 2007

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