Vindo de longe, das terras soturnas e tristes do extremo norte
Das profundezas mórbidas do lado obscuro da alma,
Da infinitude dos abismos e dos desfiladeiros que se assomam à beleza da vida,
Do país das noites imensas e gélidas e sem luas,
Eis que surge trágico, vil e onipresente
O inverno.
Insinua-se lenta e silenciosamente, esgueirando-se sobre a terra
Com seus longos e gélidos dedos que esticam-se sinuosos
Por entre os troncos das árvores que se encolhem à sua passagem.
Carrega consigo o grande nada, inconcebível pela vã filosofia do homem.
Segue sua marcha em lenta e calma determinação esvaziando almas,
Consumindo as belezas, retirando as cores da natureza,
Calando a tudo exceto os gritos e os uivos.
O inverno se anuncia com a partida da mulher amada.
Esta que se foi tal qual o tornado ou a tempestade,
Deixando atrás de si apenas a destruição, o vazio, o desespero.
Ruínas de tudo o que outrora foi vivo, rico e próspero
São o legado da mulher amada e de sua passagem devastadora.
Esta mulher amada que, mesmo agora, longínqua,
Semeando a tempestade além dos horizontes visíveis,
Perpetua-se ainda na dor da lembrança em tudo o que jaz no chão.
Após a mulher amada resta apenas
O vento,
Que não é mais amigo do homem,
E o olhar perdido da alma febril
Que observa indiferente, mas não sem tristeza,
O mundo que se encarcera em mil calabouços.
Os pássaros internam-se nos ninhos,
Os animais nas tocas, o sol nas nuvens cinzentas.
As árvores internalizam-se nos troncos
Que parecem cadáveres vegetais estáticos.
As folhas caem, os frutos caem, as flores morrem.
As mulheres abrigam-se nas casas e, dentro das casas,
Abrigam-se nas roupas grossas. As crianças desaparecem com seus sorrisos.
Os homens internam-se em si mesmos.
O inverno não é o frio,
É a ausência de calor.
Ele não é a tempestade,
É a falta de um céu claro e ensolarado.
Ele é a carência, a ausência de qualquer coisa.
O inverno não é nada senão o próprio nada.
Ele é aquilo que não é. É a própria inexistência.
É a morte.
A vida é o verão, a existência, a abundância, a diversidade explosiva, o tudo.
O vento sopra e uiva furioso gritando o desespero da ausência da mulher amada.
O homem só e dilacerado sentado sobre os escombros de seus sentimentos
Vê a si mesmo como em um delírio febril.
É nesse momento fugaz que,
Incapaz de discernir a ilusão e a realidade, o homem estica o pescoço
E avista o horizonte que guarda um trêmulo feixe de luz
De um sol que já se pôs.
O horizonte é a esperança estática, que pode perfeitamente ser apenas um sonho.
O horizonte é o verão.
Mas sabendo a direção a seguir, a alma do homem,
Já cambaleante e morimbunda, aprumando-se, dá um passo
E transforma a esperança em fé.
Se o homem sobreviver pode ser que o céu se abra e o sol suba alto e forte.
Pode ser que a luz traga as cores da natureza de volta e talvez, sim,
Talvez voltem os pássaros, e os animais, e as flores e o calor da vida.
Pode ser!
Se isso acontecer, diante de tal plenitude, como um raio de sol
Que cruza a imensidão dos espaços, perfurando as nuvens sombrias e tempestuosas,
Sobrepujando bravamente a barreira das copas das árvores em busca da terra, surgirá
A mulher amada
Linda e ensolarada. Ela sorrirá
E o homem dirá pra o céu “É verão”
E chorará como nunca porque sabe,
Sabe pela sabedoria do fundo da consciência de todas as razões
Que um milagre aconteceu.
André Terra
Rio de Janeiro 26 de maio de 2008
Nenhum comentário:
Postar um comentário