quinta-feira, 3 de abril de 2008

Um longo adeus

(letra de música)

Eu vi você passar e vir me ver
E ter-me intermitentemente aqui e ali,
A sós, a dois. O teu, o meu
O nosso amor é como um vento bom
Um vago som de luz, um verso
Inverso envolto em vestes vãs
A vastidão azul azul

Eu vi você passar por mim e ir-se assim
Pra longe, longe no seu ser distante, avulso
E muito além de mim e agora

Eu tenho a vida inteira pra viver
E vir a te esquecer um dia
Mas a vida inteira havia
De ser muito pouco

Se não era mais para ser
Me diz porque que dói demais
Por mais que eu tenha
A vida inteira pra dizer adeus

Eu tenho a vida inteira pra dizer adeus
Por deus não vá embora
Muito embora agora
Seja tarde demais

Se não era mais para ser
Me diz porque que dói demais
Por mais que eu tenha
A vida inteira pra dizer adeus
Adeus

O nosso amor é como um vento bom
Um vago som, um vulto teu
A voz da vida, uma visão
Um vil e vagaroso adeus


André Terra (2007 / 2008)

Poesia de verão

Ah, o verão!
A alma se alarga
As saias se encurtam
O sol se mostra pleno em seu vigor
Banhando tudo o que há por sobre a terra de beleza


Tudo é muito verde e muito azul no verão
Paira no ar qualquer magia, qualquer beleza mística e íntima
Que se faz perceber no canto voador dos pássaros
E no silêncio multicolorido das flores


Ah, o verão!
Este que é, em sua essência, uma pluralidade, uma riqueza,
Uma abundância de tudo
A vida que se expande e transborda
O rio que não cabe em seu leito e transborda
O mar que não cabe em seu leito
A mata que, de tão verde, não cabe em si
O seio que transborda,
Como o mar, como a mata, como o rio,
Como a chuva que, de tão alegre,
Não se contém e cai abundante
Para encontrar a mata,
E depois o rio,
E depois o mar,
E depois o seio, e depois o céu.


Mas o verão é, acima de tudo, uma alegria
Uma alegria rica, simples, abusada e despudorada
Uma alegria despretensiosa, inexplicável, inexprimível e sem razão de ser
Uma alegria sem cabimento como toda a alegria.

No verão minha alma aguça os sentidos
E enche-se de olhos para as moças que passam
E os olhos enchem-se de mãos
E as mãos enchem-se de ternura e desejos
E os desejos enchem-se de moças e de sol
O sol e as moças
Confundem meus olhos e torcem-me o pescoço

É lindo observá-las ao sol andando alegres e acaloradas
Morenas, lindas,
As faces coradas, os seios saltando em busca de luz
Como as árvores.


Passeiam em bandos, às vezes, e se envergonham ligeiramente
Se o sol lhes arranca uma gota de suor que escorre pelo rosto.
Estão sempre esticando as saias porque andam um pouco mais nuas
Do que se sentiriam à vontade.
Temem que seu segredo seja revelado.
O grande segredo, o grande mistério
Da mulher.
O segredo guardado a sete chaves oculto no corpo e nos olhos.
O segredo cobiçado pelo sol que, no verão, abre as portas dos templos de afrodite
Como um invasor bárbaro.
E no verão as moças estão cheias de segredinhos.
Cochicham e dão risadas, orgulhosas de sua feminilidade despida e aguçada pelo verão.
Felizes de despertar a fome e fúria dos homens, têm a benção da deusa,
E meu coração enlouquece!

Ah, o verão!! O verão!!

Esta tempestade de paz, gozo e bem estar
É apolo, o deus sol, que do alto da sua glória e poder
Ri da sua própria natureza efêmera
Como se isto tudo fosse eterno.

Quanto a mim, só espero poder carregar
Para o inverno dos meus dias vindouros
Este calor no coração, cheio de porvir
E de vida.



André Terra,
Praia da Ferrugem, Santa Catarina. Janeiro de 2008

A mulher e a montanha

Poucos são os homens capazes de ver, realmente ver uma mulher.

A maioria de nós as dilacera como um esquartejador e enxerga apenas partes de mulher.

Assim nós vemos um rosto, um seio, uma nádega, um par de pernas. Alguns, com melhor perspectiva vêem um corpo, um sentimento, um conjunto de gestos.
Mas quantos homens são capazes de ver uma mulher, uma mulher inteira, percebendo as nuances graciosas que fazem com que todas as partes interajam? Quantos?

Tal qual a formiga, não podem enxergar toda a montanha enquanto caminham sobre ela.

Assim, ao olhar minha mulher de tal perspectiva e ter o privilégio de admirá-la na sua totalidade, me sinto o dono de uma riqueza imensa e isso me faz sentir bem a respeito de mim mesmo.

Dessa forma, penso eu, se sentiam os sábios do oriente ao contemplar ao longe o monte Fuji na sua indivisível e grandiosa beleza.


André Terra 2006

A mulher feminista

.

Uma mulher extremamente feminista nos dias de hoje é como um homem chato que chegou de penetra, sem trazer cerveja, em uma festa com pouca mulher.


André Terra, dezembro de 2007

Pra me redimir com o samba

(letra de música)



Não gosto de samba que o samba é doente
Não liga pra agente, só faz o que quer
É solto na vida, é o que der e vier
É um velho pandeiro e uma nova mulher

Não gosto de samba que o samba é vadio
Se manda pro Rio e vive a cantar
Não sai mais do bar nem da beira do mar
Não larga a morena nem pra descansar

E anda falando de mim por aí
Dizendo na rua – Vê lá! Esse aí
Parece que bom sujeito não é
É ruim da cabeça, é doente do pé.

Não gosto de samba que o samba é a alegria
Que a vida não via, que a vida não quis
Pergunto pro samba e o samba não diz
Como é que se faz pra se viver feliz

Mas quando esse samba sambou no meu coração
O samba tocou em outra estação
Então sorridente, com a alma contente,
Lhe dei de presente uma nova canção


Não gosto de samba que o samba é dureza
Se estou na tristeza não tá nem aí
Diante das dores do mundo ele ri
Carrega a alegria inteira pra si

Não gosto de samba que o samba é inimigo
Não samba comigo, me deixa pra trás
Navega nos ares e leva a mulata
Me deixa esperando sozinho no cais

E anda falando de mim por aí
Dizendo na rua – Vê lá! Esse aí
Parece que bom sujeito não é
É ruim da cabeça, é doente do pé.

Não gosto de samba que o samba é a alegria
Que a vida não via, que a vida não quis
Pergunto pro samba e o samba não diz
Como é que se faz pra se viver feliz

Mas quando esse samba sambou no meu coração
O samba mudou e desde então
Não sei mais mentir. Eu vivo a sorrir
Pra me redimir com o samba


André Terra

Morena

(letra de música)


Me diga a que veio, morena
Que anseio por saber de ti
Porque quando passas, alegre e ri
Tu paras o tempo atrás de ti

Me dá do teu gosto, morena
Que exposto no sol a dourar
Teu corpo tem cheiro de brisa de mar
De fruta madura a se desfrutar

Pois diga você
O que os olhos, morena
Não sabem dizer
És flor de açucena
És flor do querer
A vida não vive sem vir ver você

Pois diga você,
O que os lábios, morena
Não querem dizer
O que a mente pena pra compreender
O amor que transborda de mim por você

Não fala com a vida, morena
Que a vida não sabe dizer
A vida não é e nem deixa de ser
É à flor da pele morena, é você
Me olhas de um jeito, morena
Que olha, eu vou te dizer
Mal sabes que olhos me invejam por ter
Os olhos que olham-te a ver-me te ver

Pois diga você
O que os olhos, morena
Não sabem dizer
És flor de açucena
És flor do querer
A vida não vive sem viver você

Pois diga você,
O que os seios, morena
Não ousam dizer
O que as pernas morenas
Em roupas pequenas não temem expor
Da beleza de ser

Pois cala morena
Que o beijo, morena
Já vem me dizer
E não sai de cena na minha canção
Porque o meu coração se perdeu
Por você


André Terra

Antítese

Ó deuses do olimpo e entidades supremas dos céus que fizestes o mundo e todas as coisas
Ó mãe natureza que reside em todas as partes e em nós mesmos, tu que és tudo o que há
Ó grandes mistérios ocultos que regem o universo cuja natureza desconheço por completo
Ó deus pai todo poderoso criador dos céus, dos mares e das terras,
Vós todos, ouçam minhas súplicas e esclareçam-me a dúvida torturante:
Por que fizestes desta maneira esta criatura que me passa diante dos olhos,
Esta moça, esta fêmea, esta que é meu desejo e meu túmulo?

Por que haveria ela de me embelezar a paisagem e a alma,
De despertar a aventura adormecida de meu peito e
Empregnar-me a carne e alimentar-se de meu sangue e
Esvaziar-me, por fim, a mesma alma que me deu outrora?
Por que a criastes desta forma, para povoar meus pensamentos e minhas desilusões?
Por que ela leva-me às nuvens e me deixa de lá despencar no vazio?
Por que enchestes-na de seios e de curvas que me atiçam e negam-se a mim simultaneamente?
Pois vos digo que é ela o veneno e o antídoto e o anti-antídoto,
A antítese, propriamente dita, que nega-se a si mesma, afirmando-se a todo momento.

Ó deuses todos e divindades sobrenaturais iluminem-me pois nada compreendo
Se esta que me trás a vida e a morte é azar e sorte, gozo e confinamento.
Se ela é o perfume das flores primaveris de onde vêm então esse cheiro fétido de podridão?
E de onde então vêm a alegria tão pura e simples que extravasa do seu sorriso
Quando seus olhos, por um momento, são meus?
Por que então haveria de ser ela quem traz a lua cheia, e não somente traz,
Mas quem é a própria lua e o céu e o mar?
Sim, o mar. O mar. Ela é o mar. E as ondas, e a terra, e os pássaros, e as flores,
E os ventos, e plantas e animais e
Todas as coisas outras belas e lindas são ela.
Ela é tudo e, por fim, até mesmo vós, ó deuses e entidades supremas,
Ela encerra em si a vós todos, pois sem ela não há natureza, nem cores,
Nem luas, nem mares, nem deuses de nenhuma natureza,
Pois sem ela não há nada.
Por ela vivo e por ela, afrodite, hei de morrer um dia.

Que o diabo a carregue, a maldita, e amaldiçõe e lhe dê morte cruel
E que deus a abençõe e guie, a bendita, e lhe dê a vida eterna,
A ela,
A mulher.


André Terra, dezembro de 2007

O nascimento brutal da poesia

Hoje a poesia se faz urgente!
É de extrema importância porque hoje algo de terrível aconteceu.
E o que aconteceu foi que o que era previsível se deu!
Choveu, como há três dias atrás. Os meteorologistas já haviam dito.
Foi um dia como ontem e como antes de ontem, ou quase
E por essa razão, meus queridos companheiros,
Em algum lugar do mundo um homem quase morreu
De tédio, e uma mulher chorou sozinha em seu quarto.
Hoje a poesia urge. Porque hoje os cães ladraram como ontem
E um homem saiu de casa sem o guarda-chuva.
É importantíssimo que se façam versos hoje! Agora! Sem demora! É imprescindível!
Mesmo que as contas estejam pagas e justamente por isso.
Mesmo que os relatórios tenham sido entregues e justamente por isso.
Mesmo que todos os sistemas estejam operando corretamente e que não haja falhas nos
Dados, é de suma importância que se façam poemas, que se façam canções,
Que se façam orações , que se façam esculturas e pinturas com urgência! É imperativo! Tem que ser hoje. Agora!
Porque todos os poetas estão mortos!
Porque todos os artistas estão mortos!
Porque todos os deuses estão mortos!
Meu deus!
Tenho que me encarregar desta tarefa árdua! Eu que não sou poeta. Eu que não sou.
Tenho de fazer o parto e trazer a palavra à luz. É preciso!
Porque os homens todos se tornaram robôs.
Porque os homens quase todos se tornaram advogados,
E muitos advogados se tornaram taxistas, e poucos taxistas se tornaram loucos,
E pouquíssimos loucos se tornaram assassinos,
E apenas um se tornou poeta
Mas já morreu.
Porque as ruas estão cheias de máquinas.
Porque a economia vai indo bem e a balança comercial está favorável.
Meu deus, hoje mais do que nunca a poesia se faz necessária
Porque já não há mais espaço para ela que vaga morimbunda
Às margens dos subúrbios do terceiro mundo.
Porque em algum lugar do mundo alguém sofre por amor.
Porque em algum oceano profundo há um navio naufragado
Porque em algum canto remoto aconteceu um suspiro de mulher,
E depois, uma lágrima caiu. Meu deus!! Meu deus!!
Há de se fazer poesia já!!
Porque uma flor nasceu a despeito de tudo!
Porque uma criança nasceu a despeito de tudo!
Porque um beijo se deu a despeito de tudo e de todos
Em algum lugar! Eu sei.
Porque uma formiga subiu no tronco de uma árvore completamente ignorante e alheia
Aos recentes avanços das telecomunicações e internet, e caiu desta mesma árvore
Pela força do vento e sem agendamento prévio.
Porque em algum lugar longínquo, em um desfiladeiro ou uma planície abissal
Nos confins da natureza humana deve existir a alma e deve existir o coração.
E é por essa razão, meus queridos companheiros, que uma poesia deve nascer.
Mas não sem um sacrifício. Deve haver sangue e suor.
Há de se degolar um cordeiro como oferenda.
Há de se queimar um vilarejo e deixar um tanto de crianças órfãs.
Há de se derramar lágrimas e pagar promessas com sofrimento.
Há de se sacrificar uma virgem e confessar mil pecados
Para que a poesia ganhe vida e se mantenha forte, alimentada com sangue e carne,
Para que tenha odor de sexo e suor,
Para que possa desprender-se de si e atirar-se contra os rochedos como o mar.
Pois é urgente, é completamente urgente, é indispensável
Que se faça poesia. Hoje! Agora!
É preciso, pelo amor de Deus.




André Terra, dezembro de 2007

O amor dos homens

Na árvore em frente

Eu terei mandado instalar um alto-falante com que os passarinhos

Amplifiquem seus alegres cantos para o teu lânguido despertar.

Acordarás feliz sob o lençol de linho antigo

Com um raio de sol a brincar no talvegue de teus seios

E me darás a boca em flor; minhas mãos amantes

Te buscarão longamente e tu virás de longe, amiga

Do fundo do teu ser de sono e plumas

Para me receber; nossa fruição

Será serena e tarda, repousarei em ti

Como o homem sobre o seu túmulo, pois nada

Haverá fora de nós. Nosso amor será simples e sem tempo.

Depois saudaremos a claridade. Tu dirás

Bom dia ao teto que nos abriga

E ao espelho que recolhe a tua rápida nudez.

Em seguida teremos fome: haverá chá-da-índia

Para matar a nossa sede e mel

Para adoçar o nosso pão. Satisfeitos, ficaremos

Como dois irmãos que se amam além do sangue

E fumaremos juntos o nosso primeiro cigarro matutino.

Só então nos separaremos. Tu me perguntarás

E eu te responderei, a olhar com ternura as minhas pernas

Que o amor pacificou, lembrando-me que elas andaram muitas léguas de mulher

Até te descobrir. Pensarei que tu és a flor extrema

Dessa desesperada minha busca; que em ti

Fez-se a unidade. De repente, ficarei triste

E solitário como um homem, vagamente atento

Aos ruídos longínquos da cidade, enquanto te atarefas absurda

No teu cotidiano, perdida, ah tão perdida

De mim. Sentirei alguma coisa que se fecha no meu peito

Como pesada porta. Terei ciúme

Da luz que te configura e de ti mesma

Que te deixas viver, quando deveras

Seguir comigo como a jovem árvore na corrente de um rio

Em demanda do abismo. Vem-me a angústia

Do limite que nos antagoniza. Vejo a redoma de ar

Que te circunda – o espaço

Que separa os nossos tempos. Tua forma

É outra: bela demais, talvez, para poder

Ser totalmente minha. Tua respiração

Obedece a um ritmo diverso. Tu és mulher.

Tu tens seios, lágrimas e pétalas. À tua volta

O ar se faz aroma. Fora de mim

És pura imagem; em mim

És como um pássaro que eu subjugo, como um pão

Que eu mastigo, como uma secreta fonte entreaberta

Em que bebo, como um resto de nuvem

Sobre que me repouso. Mas nada

Consegue arrancar-te à tua obstinação

Em ser, fora de mim – e eu sofro, amada

De não me seres mais. Mas tudo é nada.

Olho de súbito tua face, onde há gravada

Toda a história da vida, teu corpo

Rompendo em flores, teu ventre

Fértil. Move-te

Uma infinita paciência. Na concha do teu sexo

Estou eu, meus poemas, minhas dores

Minhas ressurreições. Teus seios

São cântaros de leite com que matas

A fome universal. És mulher

Como folha, como flor e como fruto

E eu sou apenas só. Escravizado em ti

Despeço-me de mim, sigo caminhando à tua grande

Pequenina sombra. Vou ver-te tomar banho

Lavar de ti o que restou do nosso amor

Enquanto busco em minha mente algo que te dizer

De estupefaciente. Mas tudo é nada.

São teus gestos que falam, a contração

Dos lábios de maneira a esticar melhor a pele

Para passar o creme, a boca

Levemente entreaberta com que mistificar melhor a eterna imagem

No eterno espelho. E então, desesperado

Parto de ti, sou caçador de tigres em Bengala

Alpinista no Tibet, monje em Cintra, espeleólogo

Na Patagônia. Passo três meses

Numa jangada em pleno oceano para

Provar a origem polinésica dos maias. Alimento-me

De plancto, converso com as gaivotas, deito ao mar poesia engarrafada, acabo

Naufragando nas costas de Antofagasta. Time, Life e Paris-Match

Dedicam-me enormes reportagens. Fazem-me

O "Homem do Ano" e candidato certo ao Prêmio Nobel.

Mas eis que comes um pêssego. Teu lábio

Inferior dobra-se sob a polpa, o suco

Escorre pelo teu queixo, cai uma gota no teu seio

E tu te ris. Teu riso

Desagrega os átomos. O espelho pulveriza-se, funde-se o cano de descarga

Quantidades insuspeitadas de estrôncio-90

Acumulam-se nas camadas superiores do banheiro

Só os genes de meus tataranetos poderão dar prova cabal de tua imensa

Radioatividade. Tu te ris, amiga

E me beijas sabendo a pêssego. E eu te amo

De morrer. Interiormente

Procuro afastar meus receios: "Não, ela me ama..."

Digo-me, para me convencer, enquanto sinto

Teus seios despontarem em minhas mãos

E se crisparem tuas nádegas. Queres ficar grávida

Imediatamente. Há em ti um desejo súbito de alcachofras. Desejarias

Fazer o parto-sem-dor à luz da teoria dos reflexos condicionados

De Pavlov. Depois, sorrindo

Silencias. Odeio o teu silêncio

Que não me pertence, que não é

De ninguém: teu silêncio

Povoado de memórias. Esbofeteio-te

E vou correndo cortar o pulso com gilete-azul; meu sangue

Flui como um pedido de perdão. Abres tua caixa de costura

E coses com linha amarela o meu pulso abandonado, que é para

Combinar bem as cores; em seguida

Fazes-me sugar tua carótida, numa longa, lenta

Transfusão. Eu convalescente

Começas a sair: foste ao cabeleireiro. Perscruto em tua face. Sinto-me

Traído, delinqüescente, em ponto de lágrimas. Mas te aproximas

Só com o casaco do pijama e pousas

Minha mão na tua perna. E então eu canto:

Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza

Corrói minha carne como um ácido! Teu signo

É o da destruição! Nada resta

Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento

De todo o meu inútil, a causa

De minha intolerável permanência! Tu és

Uma contrafação da aurora! Amor, amada

Abençoada sejas: tu e a tua

Impassibilidade. Abençoada sejas

Tu que crias a vertigem na calma, a calma

No seio da paixão. Bendita sejas

Tu que deixas o homem nu diante de si mesmo, que arrasas

Os alicerces do cotidiano. Mágica é tua face

Dentro da grande treva da existência. Sim, mágica

É a face da que não quer senão o abismo

Do ser amado. Exista ela para desmentir

A falsa mulher, a que se veste de inúteis panos

E inúteis danos. Possa ela, cada dia

Renovar o tempo, transformar

Uma hora num minuto. Seja ela

A que nega toda a vaidade, a que constrói

Todo o silêncio. Caminhe ela

Lado a lado do homem em sua antiga, solitária marcha

Para o desconhecido – esse eterno par

Com que começa e finda o mundo – ela que agora

Longe de mim, perto de mim, vivendo

Da constante presença da minha saudade

É mais do que nunca a minha amada: a minha amada e a minha amiga

A que me cobre de óleos santos e é portadora dos meus cantos

A minha amiga nunca superável

A minha inseparável inimiga.


Vinícius de Moraes
Paris, 07.1957