segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ingmar Bergman

...e novamente, mesmo depois de tudo, estou eu perambulando sem rumo pela cidade (e pela vida). Saí porque não tinha o que fazer em casa e agora estou voltando porque não tenho o que fazer na rua. A Morte vem atrás de mim. Sempre atrás de mim. É como naquele filme do Ingmar Bergman que minha mãe me mostrou uma vez. Ela encosta sua foice fria na minha nuca pra que eu não me esqueça que ela está lá.

— Ei, seu merdinha! — diz ela — Que benefício você ganha com o adiamento?

Eu não sei responder. Enfio meu queixo no casaco e acelero o passo. É como no filme do Ingmar Bergman.

— Tô falando com você. — Insiste a Morte. — Que benefício você ganha com o adiamento?

Eu não sei responder. Que merda! Eu deveria saber responder isso. Fico com vergonha, depois puto, com raiva e depois com vergonha de novo. Que merda!

A Morte chuta a minha bunda e começa a rir.

— Hahaha. Você não sabe, não é?

Enfio mais ainda o meu queixo no casaco. Dobro a esquina, um carro vem vindo rápido e um bêbado berra qualquer coisa de dentro dele quando passa por mim. Depois volta o uivo do vento e eu dou mais um passo, e depois outro, e outro, sem saber por que.

— Você é mesmo um imbecil, André. — diz ela, rindo — Um grande imbecil. É um idiota completo.

— Eu sei.

Continuo andando, olhando pro chão na minha frente e o vento frio soprando na minha cara. O Ingmar Bergman tem mais é que se fuder. E a Morte atrás de mim não se agüenta de tanto rir.

André Terra
Florianópolis, outubro de 2009

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