Essa dor
É essa dor, essa dor que lapida minha alma.
É ela que me pesa e que me impede de voar para longe das terras, para além dos homens e das atmosferas, que me impede de me perder longínquo nos céus e me julgar um deus. Um deus do meu ego, do meu mundo egoísta que não quero.
É essa dor que me faz um homem, que me faz ter os pés no chão, que poe no chão as rodas de meu carro. Mais ainda, que me fura o pneu, e me faz andar lento para que eu possa ver o mundo que me cerca com calma.
É essa dor que me faz arrastar-me como um verme para que eu sinta o gosto do chão de que sou feito. É ela que me joga ao mar e faz com que o sal arda nas minhas feridas abertas, para que eu as conheça bem.
É essa dor que testa a minha capacidade de prosseguir, que me despe, que me expõe nu diante de mim mesmo. É ela que me faz ser quem sou e não quem julgo ser.
É essa dor que me reflete desfigurado, vil, menor do que sou, mais repugnante do que sou. É ela que me impele à humildade, à humanidade. É ela que me une aos homens e mulheres. Que me faz ter com eles e amá-los por que sou como eles e estou entre eles.
É essa dor que me faz sentir igual a todos, realizando assim o meu desejo último. É ela que me impede de ir morar nos imensos desertos onde sou rei e morreria seco. É ela que me força a estar nas terras do estrangeiro e ser um entre outros.
É essa morte que vive em mim que me faz ver a vida, e sentir a verdade do privilégio que tenho quando ando até a lagoa com meus próprios pés e vejo os pássaros pescarem.
É essa solidão que mora em mim que me faz sentir o quão preciosos são aqueles que amo e que é preciso lutar por eles.
Não vou criticá-la, dor de minha alma. Ao contrário, te sou grato pelo que me proporciona. Não te gosto porque te julgo infinita. Mas és finita como tudo. E quando saíres de cima dos meus ombros sempre poderei me lembrar que ainda sei como voar.
André Terra
Florianópolis, outubro de 2009
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