Rio - Floripa
Ô meu Rio de Janeiro
Me perdoa, Redentor
Mas eu tava sem dinheiro,
Sem sossego e sem amor.
Me fudendo o ano inteiro
Pra num belo fevereiro
Me abordar algum funkeiro
E roubar todo o meu dinheiro
Nesse Rio de Janeiro.
Ir morar em Olaria,
Realengo, Freguesia.
Mas o bom é Ipanema,
Sem povão e sem poema.
Sem garota pra poeta
Só pra desembargador.
Deus me livre. Que horror.
Guara plus a 2 real!
Moço, não me leve a mal.
Conjugado de 1 milhão?
Me desculpa. Quero não.
Sou malandro carioca
E malandro se antecipa.
Vida boa é a que se toca
Nesses mares de Floripa.
André Terra - Florianópolis
Dezembro / 2009
Este blog tem a função inicial de compartilhar poesias, mas certamente está aberto a outros devaneios meus e de quem quiser colaborar, sugerir, comentar e etc.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Nesse mundo há muita gente
Nesse mundo há muita gente. Gente demais. Gente fazendo barulho, criando confusão, poluindo, dando trabalho, gerando trânsito e obstruindo valores. Gente. Muita gente. E fica essa sensação inquietante de que, apesar dos nossos malabarismos, estamos subtraindo mais do que somando. Estamos sobrando, como em uma conversa de bar com mais de 5 pessoas. E agora? Como superar a vergonha de encarar a face do mundo que nos deu uma existência que não contribuiu para nada? Como admitir que roubamos uma parte da beleza que havia no mundo antes da nossa chegada?
Nesse mundo há muita gente. Gente demais. Gente fazendo barulho, criando confusão, poluindo, dando trabalho, gerando trânsito e obstruindo valores. Gente. Muita gente. E fica essa sensação inquietante de que, apesar dos nossos malabarismos, estamos subtraindo mais do que somando. Estamos sobrando, como em uma conversa de bar com mais de 5 pessoas. E agora? Como superar a vergonha de encarar a face do mundo que nos deu uma existência que não contribuiu para nada? Como admitir que roubamos uma parte da beleza que havia no mundo antes da nossa chegada?
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Ingmar Bergman
...e novamente, mesmo depois de tudo, estou eu perambulando sem rumo pela cidade (e pela vida). Saí porque não tinha o que fazer em casa e agora estou voltando porque não tenho o que fazer na rua. A Morte vem atrás de mim. Sempre atrás de mim. É como naquele filme do Ingmar Bergman que minha mãe me mostrou uma vez. Ela encosta sua foice fria na minha nuca pra que eu não me esqueça que ela está lá.
...e novamente, mesmo depois de tudo, estou eu perambulando sem rumo pela cidade (e pela vida). Saí porque não tinha o que fazer em casa e agora estou voltando porque não tenho o que fazer na rua. A Morte vem atrás de mim. Sempre atrás de mim. É como naquele filme do Ingmar Bergman que minha mãe me mostrou uma vez. Ela encosta sua foice fria na minha nuca pra que eu não me esqueça que ela está lá.
— Ei, seu merdinha! — diz ela — Que benefício você ganha com o adiamento?
Eu não sei responder. Enfio meu queixo no casaco e acelero o passo. É como no filme do Ingmar Bergman.
— Tô falando com você. — Insiste a Morte. — Que benefício você ganha com o adiamento?
Eu não sei responder. Que merda! Eu deveria saber responder isso. Fico com vergonha, depois puto, com raiva e depois com vergonha de novo. Que merda!
A Morte chuta a minha bunda e começa a rir.
— Hahaha. Você não sabe, não é?
Enfio mais ainda o meu queixo no casaco. Dobro a esquina, um carro vem vindo rápido e um bêbado berra qualquer coisa de dentro dele quando passa por mim. Depois volta o uivo do vento e eu dou mais um passo, e depois outro, e outro, sem saber por que.
— Você é mesmo um imbecil, André. — diz ela, rindo — Um grande imbecil. É um idiota completo.
— Eu sei.
Continuo andando, olhando pro chão na minha frente e o vento frio soprando na minha cara. O Ingmar Bergman tem mais é que se fuder. E a Morte atrás de mim não se agüenta de tanto rir.
André Terra
Florianópolis, outubro de 2009
Não é da derrota que temos medo. Conhecemos bem a derrota. Não temos medo de fracassar. Temos sim medo de vencer mais do que poderíamos suportar. Temos medo de sermos subitamente tão bons como aparentamos ser. Temos medo, um profundo medo de sermos quem somos, de sermos muito mais do que aquilo que fingimos ser.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Crônicas motivacionais
Então vamos lá escrever alguma merda aqui. Ou não. Minha vontade de escrever vem e vai. Tô numa fase meio bukowisky. Espero que seja só uma fase. Tenho medo de estar me tornando um velho fudido resmungão. Talvez eu já seja um. As palavras tem que fluir como um rio, dizia ele. O Bukowisky. Por que as pessoas escrevem? Num é engraçado?
Então vamos lá escrever alguma merda aqui. Ou não. Minha vontade de escrever vem e vai. Tô numa fase meio bukowisky. Espero que seja só uma fase. Tenho medo de estar me tornando um velho fudido resmungão. Talvez eu já seja um. As palavras tem que fluir como um rio, dizia ele. O Bukowisky. Por que as pessoas escrevem? Num é engraçado?
Tenho pouca empolgação pra fazer isso. Escrevo por doença. Por neurose. Sei lá. Que se foda. A vida tem que ser mais simples. Tá lá a lagartixa na parede. Fica lá paradona. Pousa uma mosca, ela tenta pegar. Às vezes a mosca voa. Fica lá a lagartixa parada de novo. Às vezes ela anda e depois para. Depois anda de novo. Os bichos não têm essa metafísica toda. Eles andam porque andam e param porque param. Nós não. Se fazemos algo temos que saber por que, temos que ter um propósito. Assim se escrevo, porque escrevo?
Sempre tem um puto da national geographic, ou algo assim, querendo dar um propósito para a vida dos animais também. Aí o lobo saiu em busca de comida. Vai ver não. Saiu, andou pra lá e pra cá e depois parou de andar e dormiu. O problema é que não somos um bicho. Sobreviver não nos basta. Pelo menos não a mim. Me sinto sobrevivendo e acho minha vida, naturalmente, uma bosta.
Preciso de mais motivação. Mas motivação é uma coisa engraçada. Há quem tenha e há quem não tenha. Às vezes ela surge, meio que do nada. De onde vem a motivação? A empolgação? Sei lá. Eu vejo todo o tipo de gente fazendo todo o tipo de coisas que eu não conseguiria fazer. Eu pergunto às vezes. “Cara, como você consegue fazer isso?” Geralmente a pessoa diz que precisa. O que eu não sei se é o real motivo. Tem gente que precisa fazer coisas que não faz, e tem gente que faz coisas que não precisa. O que move essa galera? Eu não sei.
Minha casa é um aglomerado de coisas. É como uma casa de uma pessoa normal em que veio um gigante, a sacudiu, e depois recolocou no lugar. Tem uma porrada de coisas espalhadas que eu não tenho saco de arrumar. Sapatos, meias pelo chão, tralhas em cima da mesa. A cozinha eu divido com as formigas e o resto da casa com as aranhas. Fica um monte de restos de refeições passadas em cima da pia. Eu não me orgulho disso não! Nem um pouco. Mas é que eu não consigo. Você consegue? Então como é que você faz? Eu pergunto isso pra todo mundo. Como é que você faz? Acorda de manhã todo motivado estufa o peito e diz “Hoje vou fazer faxina na casa toda. Que alegria.”? Vá se fuder! Isso não me motiva. Eu gostaria que o fizesse. Mas não.
Acontece sempre isso. Saio pra fazer compras e vejo uns pescadores na lagoa. Já à noite, geralmente. Um frio do caralho, e sai aquele cara com sua tarrafa. Muitas vezes já tem lá pra uns 60 anos. Ele sai, enfia o pé naquela água gelada e fica lá com alguns outros homens, ou às vezes sozinho, pescando algum peixe tão pequeno que deve ter mais espinhas do que carne. Todo dia é a mesma coisa. O que motiva esse cara?? Que maldita química existe no cérebro dele que faz com que ele faça isso? Será que nasceu assim? Eu desconheço isso. Será que é alguma coisa que ele sabe e eu não sei? Ou talvez eu saiba demais. Ou talvez, não lhe ocorra refletir sobre a sua vida. Quer dizer, imagina se, em galápagos, uma iguana chega pra outra e diz “Ei cara. Essa vida que agente leva aqui parado no sol em cima da pedra é mesmo uma merda!”. Talvez o pescador seja meio que uma iguana de galápagos, ou como a lagartixa. Ele anda, ele para. Ele pesca, ele volta. Foda-se. Talvez se ele me visse escrevendo esse monte de merda pensasse o mesmo. “O que motiva esse cara a escrever esse monte de merda?” Mas eu duvido. E se ele me perguntasse eu não saberia responder. Talvez pelo mesmo motivo.
É óbvio que eu sou um maluco. E isso não me incomoda muito. Não é isso que me incomoda. Posso ser um maluco alegre e motivado com minha maluquice. Isso é muito bom. O ruim é quando a sua maluquice é um fardo. Aí você sai fazendo terapia, meditação, longas caminhadas contemplativas. Fiz tudo isso. Continuo doido. Mas eu reclamo demais. Também não é tão ruim assim. Minha maluquice me motiva às vezes. Mas não me engaja no mundo, não me inclui na sociedade. Isso complica tudo. Agente precisa de pessoas; precisa funcionar socialmente. É besteira dizer que não. É maluquice! Hehe
Agente tem que trabalhar pra se sustentar. Num é uma merda isso? O índio não. O índio num tem que fazer essa merda. Ele ta certo. Ele tem tudo já. Como agente. Mas nós não trabalhamos pra comer. Trabalhamos pra ter uma porrada de coisas: carro, celular, casa, computador, televisão. Precisamos disso tudo! Não é? Claro que não! Não precisamos. Só precisamos ser como o outro. Se o outro tem carro, casa, televisão e nós não, seremos excluídos. Viraremos mendigos. E ninguém quer ser mendigo. Um índio na selva é um índio porque está do lado de índios. Não falta nada a ele. Claro que não. Um índio na cidade é um mendigo. Então nós, índios da cidade, temos que fazer um monte de coisas que não queremos para podermos comprar um monte de coisas que não precisamos e só então poderemos existir em paz. Mas acontece que isso é difícil. Pra umas pessoas é mais fácil. Pra mim é muito difícil.
Veja o caso do funcionário da limpeza. Eu estava no centro da cidade com uma puta vontade de mijar. Geralmente eu vou no shopping, mas dessa vez não achei nenhum. Então entrei no bob’s, subi as escadas e achei o banheiro. Quando entrei tinha um jovem que era funcionário da limpeza. Pedi licença pra passar e usar o mictório. “Olha, o cara fez uma sugeira aí.” Disse ele. Olhei e vi que alguém tinha cagado ou vomitado não só o mictório como tudo em volta. Fui então para o vaso e percebi que ali também estava tudo cagado. Mas estava tão sujo que eu desisti de usar o banheiro. Saí dizendo pro cara algo como “é, ta foda mesmo”.
Nunca senti tanta compaixão por um ser humano quanto por aquele cara que ia limpar aquela merda toda. Muito provavelmente, os funcionários de limpeza dos banheiros públicos têm contribuído mais para a saúde pública do que todos os médicos e enfermeiros juntos. Apesar de que, muito raramente você percebe a existência deles exceto em casos como o meu, quando o banheiro está inutilizável e você está com uma puta vontade de mijar. O salário deles também não deve ser algo muito superior ao que um escravo alforriado ganhava. Agora eu pergunto. O que motiva esse cara? Como ele consegue, cara? Vai limpar aquele banheiro sujo de merda até o teto e depois que terminar deveria receber um prêmio, uma medalha, um Nobel, um Grammy, um Oscar, sei lá. Mas não. Num vai nem receber um muito obrigado. Pior. Ninguém nem vai se dignar a falar com ele. E depois vai vir outro cara bêbado ou desleixado e vai cagar tudo de novo e ele vai ter que fazer tudo outra vez. Agora imagina esse cara acordando e indo trabalhar. Eu tive vontade de ir lá no dia seguinte só pra ver se ele tinha ido ao trabalho. Provavelmente ele foi. Que grande herói! O que motiva essas pessoas???? Pelo amor de deus! Alguém me explica isso!
Eu não consigo! Aí sou um louco, um vagabundo. Sou. Mas não consigo. Quer dizer, ainda temos que agüentar os outros perrengues todos inevitáveis da vida. Porra. Eu não me sinto apto pra trabalhar com nada desse mundo. Aí vivo devendo, pedindo pra família. Também não é justo. Aí eu trabalho me arrastando. Depois desisto, passo um ano fudido, depois arrumo outro emprego que não tem nada a ver com o primeiro. Ando, paro. Caio, me levanto, caio de novo. Sou uma lagartixa. Sou uma iguana de galápagos. Mas eu não gosto de galápagos. Queria estar na polinésia francesa. Mas eu não estou. E não posso nadar até tão longe. O que eu posso é escrever. Mas agora, perdi o saco. Valeu.
domingo, 11 de outubro de 2009
Essa dor
É essa dor, essa dor que lapida minha alma.
É ela que me pesa e que me impede de voar para longe das terras, para além dos homens e das atmosferas, que me impede de me perder longínquo nos céus e me julgar um deus. Um deus do meu ego, do meu mundo egoísta que não quero.
É essa dor que me faz um homem, que me faz ter os pés no chão, que poe no chão as rodas de meu carro. Mais ainda, que me fura o pneu, e me faz andar lento para que eu possa ver o mundo que me cerca com calma.
É essa dor que me faz arrastar-me como um verme para que eu sinta o gosto do chão de que sou feito. É ela que me joga ao mar e faz com que o sal arda nas minhas feridas abertas, para que eu as conheça bem.
É essa dor que testa a minha capacidade de prosseguir, que me despe, que me expõe nu diante de mim mesmo. É ela que me faz ser quem sou e não quem julgo ser.
É essa dor que me reflete desfigurado, vil, menor do que sou, mais repugnante do que sou. É ela que me impele à humildade, à humanidade. É ela que me une aos homens e mulheres. Que me faz ter com eles e amá-los por que sou como eles e estou entre eles.
É essa dor que me faz sentir igual a todos, realizando assim o meu desejo último. É ela que me impede de ir morar nos imensos desertos onde sou rei e morreria seco. É ela que me força a estar nas terras do estrangeiro e ser um entre outros.
É essa morte que vive em mim que me faz ver a vida, e sentir a verdade do privilégio que tenho quando ando até a lagoa com meus próprios pés e vejo os pássaros pescarem.
É essa solidão que mora em mim que me faz sentir o quão preciosos são aqueles que amo e que é preciso lutar por eles.
Não vou criticá-la, dor de minha alma. Ao contrário, te sou grato pelo que me proporciona. Não te gosto porque te julgo infinita. Mas és finita como tudo. E quando saíres de cima dos meus ombros sempre poderei me lembrar que ainda sei como voar.
André Terra
Florianópolis, outubro de 2009
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Soneto da coragem
Se não se fizer o que
Se é livre para fazer,
Então como saber
Quem se é livre para ser?
Quero viver, não na miséria de um bem estar
Nem no conforto do verbo aceito,
Mas na dor rica de um despertar
Dono da nudez de meu próprio peito.
Quero banquetear-me, vida, desta fartura de vento,
Do sim, do não, do encontro e da partida.
Pois como ter paz sem enfrentar tormento
E andar livre sem caminhos vãos?
Por que furtar-me de tal vida ensandecida
Se é essa loucura que me faz são?
André Terra
Rio de Janeiro, junho / 2009
Se não se fizer o que
Se é livre para fazer,
Então como saber
Quem se é livre para ser?
Quero viver, não na miséria de um bem estar
Nem no conforto do verbo aceito,
Mas na dor rica de um despertar
Dono da nudez de meu próprio peito.
Quero banquetear-me, vida, desta fartura de vento,
Do sim, do não, do encontro e da partida.
Pois como ter paz sem enfrentar tormento
E andar livre sem caminhos vãos?
Por que furtar-me de tal vida ensandecida
Se é essa loucura que me faz são?
André Terra
Rio de Janeiro, junho / 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Convocação
Eu, sr. Burocrata, na qualidade de sub-secretário executivo da divisão estadual de babacas e zé-roelas do Estado do Rio de Janeiro, venho por meio desta convocar o sr. André Terra Garcia a comparecer à assembléia geral extraordinária que irá se realizar no dia 1º de abril deste ano para prestar esclarecimento e deliberar sobre os seguintes assuntos de seu interesse:
1 – Leitura e discussão da ata da assembléia anterior.
2 – Discussão de assuntos aleatórios de natureza intrínseca à divisão, ou não.
3 – Discussão acerca das acusações que recaem sobre o sr. André Terra Garcia feitas por mim e por ilustres e prestigiados membros da divisão de babacas e zé-roelas previstas no código penal brasileiro, artigo 171.
Entre elas estão a falta de assiduidade e o desleixo com relação a documentação necessária (foi relatado que o sr. André trouxe documentos em 2 vias ao invés de 3 e com as cores trocadas, imaginem só.), além da falta de decoro do sr. André tendo sido flagrado peidando em local público e urinando no canto do muro, sem falar no uso de linguajar chulo ou inapropriado inclusive na frente de crianças e senhoras.
O sr. André Terra Garcia também não possui decoro ou estilo ao se trajar, indo trabalhar sem paletó e se recusando a usar gravata como fazem os profissionais competentes como os sub-secretários executivos e os vendedores de amendoim de botafogo. Mais grave ainda é o problema do estilo de vida boêmio e irresponsável do sr. André, tendo ele próprio admitido que por diversas vezes dirigiu a sua vida depois de beber e algumas vezes completamente embriagado, sem mencionar no convite indecoroso que este fez ao sr. Deus, que este senhor chama pejorativamente de “barbudo” ou “barbudinho”, convidando-O a tomar uma cervejinha gelada e curtir um samba. Convite ao qual, segundo fontes extra-oficiais, o senhor Deus recusou.
Sem mais.
Atenciosamente,
Sr. Burocrata
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