terça-feira, 16 de novembro de 2010


Eu sou uma prisão da qual quero sair.
Sendo isso impossível, fantasio que sou a bela casa onde decidi morar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Renascimento

Ah, meu coração que não desiste
Que dança ferido, que vaga sem ver.
A paixão é mesmo maior que o saber
O corpo canta se a alma insiste.

Ah, meu coração que não resiste
Se lança vencido, se entrega sem crer.
A paixão é mesmo maior que o dever
A alma dança e o corpo assiste.

A minha canção ainda persiste
Porque o desejo ainda quer
E como tudo que de belo existe
Nasceu de uma mulher.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tristeza

A tristeza hoje passou por mim. E, velha amiga que é, vendo o estado miserável em que me encontrava, teve piedade e resolveu ficar.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Adeus


E nessa vida cheia de adeus
Aonde breves vão-se os meus,
No desencontro de tantos breus
Encontrar-me-ia Deus?



André Terra
Florianópolis, 7 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Labirinto

A mulher. Sempre ela. Em toda parte.
A onipresente.
A presença da solidão. Mulher.

A mulher é uma coisa só.
Não é Larissa nem Luciana.
A mulher é um todo... complementar. Completamente.
A mulher amálgama.

Profusão de alamedas, ruelas, becos, interseções, clareiras, muros.
Profusão. Difusão. A mulher difusa.
Alamedas, becos, muros, caminho da Amanda, vila Mariana, casa da Joana,
Beco da Laura, cruzamento, Isaura, Maria, Talita, vire à esquerda, Sabrina,
Sobe escada, amada, desce escada, bandida, Daniela, Bruna, Cida, Muro.
Volta tudo. Rafaela. Quem é ela?

A mulher labirinto.
Enveredando-se por uma vai-se parar em outra sem se dar conta.
Vontade de se perder. Vontade de se encontrar. Mulher.
Cada entrada é uma saída. E não há saída.
Sigo por corredores. Infindáveis corredores com altas paredes de plantas góticas.
Viro à direita. Depois à esquerda. Saída? Não há saída.
Dou meia volta.


A mulher labirinto.
Há quanto tempo estou perdido?
Meses? Anos? Décadas?
Ai de mim que esse labirinto é meu túmulo. A mulher túmulo.

Sigo pelas estreitas vias de Karina e me deparo com Tatiana.
Cruzo-a para encontrar Vanessa, que desaparece. Foi morar na Europa.
Fico só pra ver a copa.
Brasil perde pra Holanda. E nunca mais eu vi Amanda.
Dou a volta. Açucena. Essa era a mais incrível.
Vou parar pelas encostas de morena intransponível.
Que tormento! E agora?
Paula dentro. Paula fora. Que lá fora tá dureza.
Boas vindas pra Tereza.

Mãos de Clarissa, olhares de Fabiana, beijos de Alessandra...
Adaga de Carolina! Sangue! Medo! Cólera! Lágrimas!
Basta!
A mulher. Veneno, antídoto, veneno. Vida, morte, vida!
A mulher é o caminho entre dois abismos!
Caminho devagar para não acordar o meu amor.
Ternura. A mulher romance. A morena flor.

A mulher é uma só coisa.
Não se trata da abelha, se trata da colméia. Enxame.
É mel e dor. A dor do mel. Mulher colméia.

Afrodite, a de mil faces. Bela. Bela!
Víbora! Linda. Teia. A mulher aranha.
Mata-me. Devora-me branda e lentamente.
Teia. Meia lua cheia ceia seio tua. Meio nua, meio crua.
Teu enleio, meia, pé. Perna, peito... Calma, né?!
Vai subindo. Tenha fé. Meio lua, meio tua
Teu enleio, coração. Rasga. Tua! Marcha ré.
Teia, lua, seio, mão. Perna, peito... Assim não!
Cheia, riso, roupa, rua.

Preso, sufocado no abraço da serpente.
Era livre e, de repente, enovelado em tua lã.
Arrastado em tua rede, me debato em luta vã.
̶ Vai aonde? Vai com quem? Se eu só te quero bem
Enfiado em minha jaula.
̶ Não demoro. Vou à aula.
Escapei mas Ana Paula.
Não tem jeito. Manuela.
Quem é ela? Quem é ela?

“Decifra-me!”
A mulher enigma. A mulher esfinge.
Camila. Vacila e sai com outro. Ausência.
Mulher ausência. Mulher deserto. Morro.
Vivo! Renasço!
Aline! Fofoca com a Carla.
Descobre tudo sobre o canalha que sou
Mas me quer mesmo assim.
Letícia bem sabe que mau sujeito não sou
Mas não está muito afim.
Por via das dúvidas ligo para Mariana. Saiu.
Puta que pariu!
̶ Olha a boca suja! ̶ diz Adriana
Desencana. Vou-me embora.
Aurora me ignora.
Tudo bem. Não sonho mais. Chega.
Mas eis que surgem os trágicos, fatais e duros peitos de Janaína.

Fonte. A mulher é uma fonte.
Bebe viajante. Amanhã terás sede.
Perdão. A mulher perdão.
A mulher ruína. Janaína. Janaína. Abismo.

Claudia, Bia e Tuca estão tramando uma arapuca
Nas alcovas para mim.
E ainda vem Marília que armou uma armadilha.
Será esse o meu fim?
Que chance tenho eu? Nu, desarmado, indefeso?
Não te engane não, amigo. A mulher é um guerrilheiro.
Está armada até os dentes. Tem uma bala com teu nome.
E decorou teu telefone.

Fujo desesperado. Corro para longe.
Para longe da alma. Para o mundo real dos homens práticos.
Para longe, muito longe. Para além das fronteiras da poesia.
Mas de tanto correr, me canso. E na minha exaustão e delírio,
Por distração, acabo por me perder em um par de vastos olhos azuis. Olhos sem nome.
Carla, Fernanda, Juliana... Não importa. Não sei.
Só sei que eram grandes vastos olhos, e eram azuis.
Ou seriam verdes?
De qualquer modo, me perdi naqueles olhos profundos.
E me perdendo, me encontrei. E chamava os olhos apenas de “mulher”.
Mulher mar. Mulher céu. Mulher azul.
E era doce. Mulher mel. Açúcar.
E ainda era minha. Muito minha. Mulherzinha.
Mas era livre. Muitíssimo livre.
Era como se a liberdade fosse minha.
E foi ali, perdido, na imensidão azul de olhos castanhos
Que eu vi uma porta. Uma porta assim no meio do azul
Como em uma pintura surrealista.
Abri a porta e lá estavam a minha alegria e o meu túmulo.
Claros como o dia.
Então, calma e inequivocamente, dei um passo e entrei.


André Terra, Florianópolis
1º de setembro de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

OF DUST

"I wanted to be changed by the road.
I so wanted to change the road.
But somehow we both resisted change.
Somehow we were both too strong.
And yet we both winded away, unsure of where we head.
And it's like we're both confused as to who is who.
As if, late in the night, you can't tell the runner from the road - the walker from the walked.
Maybe I am just the road, dreaming that I walk"

Daniel Gildenlow