inocência
A maior de todas as verdades é a inocência. A maior e a mais invisível. No presente não posso ver sequer a inocência da flor, cujo pólen me causa uma reação alérgica, que dirá a inocência de um ser humano. Principalmente se esse ser humano for alguém que me é emocionalmente próximo e, sobretudo, se esse ser humano for eu mesmo.
Penso então em alguém com um currículo de crimes imperdoáveis. Um psicopata! Este que retira a vida de pessoas por prazer. Seria ele menos inocente que uma pedra? Não posso afirmar isso. As pedras assim como os psicopatas tem retirado a vida das pessoas por milhares de anos. Então serão ambos culpados?
Talvez o bebê seja inocente. Mas o que faz ele senão gerar trabalho ao adulto que incansavelmente cuida dele sem esperar nada em troca? Será o leão que devora uma zebra culpado? Ou seria talvez, a gramínea, devorada pela zebra, a grande inocente?
A visão da inocência na sua nudez irrestrita é o alicerce para a construção do amor. E o que poderá, senão o amor, salvar aquele que passou o último bilhão de anos ainda não nascido e estará morto no próximo bilhão, se é que algo pode? E quem pode ser mais inocente aos olhos do homem do que o próprio homem? E quem, em meio aos homens, pode ser mais inocente do que “eu”? E quando digo “eu” me refiro a “nós”. Ou seja, o grande “eu” formado pela etérea e irrestrita inocência de todos os “eus” unidos. Quem?
Não. No momento não posso enxergar nada disso. Porque agora sou culpado. Muitíssimo culpado, por tudo de errado que ronda o mundo. Tudo. Minha culpa. Agora tenho que carregar a cruz em minha fria penitência. Por todo o mal que tenho causado. E assim condeno meus semelhantes. Todos irão para a forca! Homens e pedras. Pois se sou culpado também o são os demais. E o mundo.
Mas só por enquanto. Pois um dia hei de me redimir. Porque um dia hei de morrer e enfrentar o juízo final que fantasiei para obter o meu próprio perdão. E nesse dia, em que morrerei, alguém há de chorar por mim as lágrimas que guardei para o dia em que pudesse ver a pureza de minha própria inocência e descobrir, para minha surpresa, que ela sempre esteve lá.