Precisa-se de uma casa,
De preferência bem localizada e em local indevassável.
Não é necessário que esteja mobiliada. Isso agente resolve com o tempo.
A casa não precisa ser grande, só precisa ter espaço para o homem
Seus pensamentos e seus outros eus.
É importante que haja uma varanda que também não precisa ser grande
Mas que caiba uma rede, porque uma rede é importante.
É completamente indispensável que a casa tenha um jardim,
Os apartamentos que me desculpem,
E que nesse jardim exista pelo menos quatro tipos diferentes de flores,
E que ao menos uma delas permaneça florida durante o inverno.
Precisa-se de um mato,
Um mato bom, com muitas árvores e cipós,
Desses que cheiram depois das chuvas,
Onde o homem possa encontrar-se consigo mesmo
Depois de tanto tempo perdido de si no cotidiano da cidade.
Sim, um pedaço de mato. Um mato bom, e que seja perto.
Que não haja trânsito até ele e, de preferência, que se alcance o mato
Com uma pacífica caminhada.
É desejável que o mato tenha macacos e outras coisas interessantes,
Mas, se for impossível, que pelo menos tenha passarinhos alegres
Que gostem de cantar pela manhã.
Precisa-se de um bar ou algo como um bar
Localizado nas redondezas da casa,
Que venda cerveja, ou algo como cerveja,
Ou algum líquido que seja um bom pretexto pra ver os amigos.
Ah. Claro!
Precisa-se de amigos. Não muitos, mas bons,
E que pelo menos dois ou três deles sejam como irmãos
Que dêem a impressão de que já se conhece de outras vidas.
É importante que os amigos se reúnam no bar
Para conversar sobre coisas importantes como piadas e mulher
E até mesmo coisas sem importância como política e a economia mundial,
Mas que sempre transmitam a paz de tê-los por perto ou perto do coração.
Precisa-se de uma mulher.
Uma mulher simples, de uma beleza simples.
Sem maquiagem.
Dessas mulheres que fazem coisas simples
Como desabrochar flores, encher luas, clarear céus
E ocasionalmente, até um macarrãozinho ao alho e óleo.
Dessas mulheres que têm um sorriso próprio, misterioso
Que está quase sempre com ela, mas que, quando triste,
Possa se confortar na presença do meu peito.
É importante que ela não seja celibatária, pelo amor de deus,
Mas que tenha alguma virgindade no olhar
De modo que ruboresça ligeiramente com as pequenas indecências do amor
E que seja sempre como uma fonte inesgotável de água fresca
Para esse viajante sedento que é o homem, que seja única aos seus olhos
E que seja livre, porque a mulher é como um pássaro
Que quando preso transforma seu canto em um lamento,
E não há nada mais belo, em toda a natureza, que a mulher livre.
Precisa-se de um violão,
Para cantar a mulher,
Para falar ao amigo,
Para alegrar o bar,
Para ecoar no mato,
Para apaziguar a casa,
E que o violão seja como a casa que espera o homem voltar a ele,
E que seja como o mato que lhe desperte o mistério,
E que seja o amigo fiel e a alegria do bar,
E que seja a mulher se a mulher não estiver,
E que também a mulher seja como a casa.
A mulher para onde o homem se volta para repousar da sua luta.
Que o amigo seja como a casa.
Que o bar seja como a casa.
Que o mato seja como a casa do homem,
Que sempre foi selvagem.
Precisa-se enfim, de compreensão para com o poeta
Se o poeta, na sua arrogância, pede demais,
Mas pendura a conta Manoel, que vou sempre olhar nos meus bolsos
Se tiver qualquer tostão ele é teu.
André Terra,
Rio de Janeiro 14/08/2008